Ana Luiza Guimarães

 

Ana Luiza Guimarães

 

Oi pessoal,

Se você está lendo este depoimento, é porque você está pretendendo vir trabalhar como médico na Alemanha. Trabalho há 2 anos como médica aqui e sou muito satisfeita com a minha decisão, mas tudo isso envolveu muita abdicação e dedicação até a tão sonhada Approbation.

Para a minha Approbation aqui na Alemanha eu precisei de duas provas: o Telc Sprachprüfung Medizin e a prova da Approbation (que em Schleswig-Holstein é bem semelhante ao Exam – última prova na Graduação alemã).

O Telc Sprachprüfung Medizin é uma prova de proficiência em Alemão médico. Sua nota mínima é B2 e máxima é C1. Obviamente existe nota abaixo de B2, mas isso significa que a pessoa “não passou” e não recebe nenhum certificado. A prova é dividida em “etapas”, é bem bizuradinha e tem algumas pegadinhas.

A primeira etapa é o “Hörverstehen” que vale 30 pontos. Existe uma primeira parte com “verdadeiro ou falso” e questões para marcar. O problema é que você só ouve os áudios uma ÚNICA vez. Não captou a informação, deu azar. Além disso, eles colocam muito itens com respostas quase corretas, algo como “o paciente disse que teve febre”, a informação de que o paciente teve febre é certa, está no áudio, mas quem disse não foi o paciente e sim a esposa dele. A segunda parte do Hörverstehen é de associação. Você tem umas 5 pessoas, ou seja, 5 áudios, e umas 7-8 afirmações. Você tem que selecionar qual afirmação corresponde ao áudio de cada pessoa. Mais uma vez é uma parte relativamente difícil, uma vez que há afirmativas bem semelhantes. A terceira parte do Hörverstehen é de verdadeiro ou fácil baseado no áudio. Foi a parte na qual senti menos dificuldade, porém mais uma vez tem o problema de você só poder ouvir tudo uma única vez.

A segunda etapa é o “Leseverstehen”. O maior problema desta etapa é o tempo. Geralmente são 2 textos grandes e com linguagem rebuscada. Existem questões associadas aos textos (verdadeiro ou falso; questões de marcar). Além disse há duas “tarefas” de associação, ou seja, qual afirmativa se encaixa melhor a determinado texto. Até aí foi a parte na qual senti menos dificuldade. Infelizmente há ainda nesta parte tem uma das etapas que eu considerei mais difícil na prova toda: preencher lacunas no texto. Há um grande texto com lacunas e umas 15 palavras que você pode escolher para preencher as lacunas. O problema é que essas palavras são sempre advérbio, adjetivos, conjunções, ou seja, às vezes você tem a sensação de que elas se encaixam em várias partes do texto. Senti uma certa dificuldade.

A próxima etapa é a produção textual. Você recebe informações sobre um paciente por escrito e deve fazer um relatório de alta. Meu problema nesta etapa foi mais uma vez o tempo. Eu terminei me confundindo e calculei o tempo errado, tive que correr no final. Não é uma etapa difícil se você treinar bastante antes. Existem frases clássicas que se escrevem num relatório de alta. Você treinando bem e mantendo toda a estrutura na cabeça, não tem como errar muita coisa. Obviamente você precisa de um bom vocabulário e de conhecimento de gramática, afinal, isso também é avaliado na sua produção textual. A segunda parte da “escrita” é uma “passagem de plantão” (Übergabe) por escrito. Você recebe um pequeno resuminho dos pacientes que estão internados e tem que escrever um E-mail para o colega sobre os mesmos. Aqui também é levado em conta a estrutura de um E-mail e o fato de você estar falando com um colega, ou seja, não precisa de uma linguagem tão formal assim (tem sempre alguma coisa que não tem nada a ver com paciente que também precisa ser escrito no E-mail, como por exemplo o aniversário de um outro colega).

Por último tem a parte que dá mais medo, porém que no meu caso foi a que mais gostei, a prova oral. A prova é feita em duplas (que são decididas na hora). Você é uma hora um paciente e outra hora o médico. As informações que você recebe são diferentes das informações que a outra pessoa recebe. Como paciente, você tem acesso à toda sintomatologia e tem que saber “explicar” o que você está sentindo. Como médico, você tem mais alguns sinais, mas tem que saber “perguntar” sobre os sintomas. Depois você tem que explicar para algum familiar do paciente o que estava acontecendo e o que você iria fazer a seguir. No final, você tem que passar o caso para o seu Staff. O maior problema desta etapa é você ter azar, como eu tive. Peguei uma pessoa que não sabia falar bem, ou seja, eu não entendia nada do que ela falava. Além disso, ela passava informações desencontradas e se contradizia na prova, de forma que os professores tiverem que intervir em alguns momentos para que eu não fosse prejudicada. Eu não conseguia entender a sintomatologia do meu paciente e não consegui ter diagnósticos diferenciais para decidir as minhas condutas. Mas como tive bons professores na prova oral, foi legal. Eles começaram a rir da minha “atuação” como paciente e isso me deixou bem relaxada na hora.

A prova do Telc é pedida em alguns estados atualmente como certificado de língua, a depender do estado, B2 ou C1. No meu caso, era pedido C1. Alguns estados não aceitam mais Goethe ou DAF como proficiência de língua para a Approbation. Você não precisa ter C1 em todas as etapas para conseguir o certificado C1. Você pode ser B2 em alguma etapa e sua nota final será mesmo assim C1.     

A minha prova da Approbation em si (sim, eu tive que fazer uma prova além do Telc, o Telc foi apenas meu certificado de língua) foi bem complicadinha. Eu tive um Exam, ou seja, a prova final do curso de medicina aqui na Alemanha. No primeiro dia eu tive um paciente (real, nenhum ator, um paciente que estava internado no hospital). Eu tive que colher a Anamnese, fazer exame físico e fazer toda a documentação escrita da minha “admissão”. A documentação assim como a minha capacidade de comunicação e exame físico foi uma primeira parte da minha nota. Ao contrário do Telc, aqui são levados em consideração o seu conhecimento médico (o Telc analisa mais o seu alemão, não se o seu diagnóstico está correto ou se os seus diagnósticos diferencias fazem sentido). Livros de casos como MEX, 50 wichtigsten Fälle Innere Medizin/ Chirurgie/ Bildgebende Verfahren me ajudaram muito a relembrar de muita coisa que eu havia esquecido depois de quase 4 anos de formada. Aqui pesa muito os nomes das doenças em alemão, uma vez que para tudo existe um nome de alguém, é sempre a doença de fulaninho de tal, coisa que a gente não aprende no Brasil. Li os livros de capa a capa e relembrei algumas coisas de fisiologia como o Allex. Recomendo todos eles, principalmente o MEX, é um livro incrivelmente didático. Na minha prova eu tinha um clínico geral (que foi que me acompanhou no exame do paciente), um médico da família e um cirurgião. É sempre importante ver quem são seus “Prüfers”, pois ajuda bastante ver em que área eles são mais fortes (essa uma informação que você geralmente tem direito de saber, mas que só recebe cerca de 10 dias antes da prova). O meu cirurgião era conhecido como carrasco e não deu outra, ele também assim o foi comigo. Tive 1 hora de prova e cada um tinha 20 minutos para me sabatinar sobre temas diversos. O médico da família perguntou coisas gerais de primeiros socorros, vacinas, doenças infecciosas. O Clínico perguntou muito sobre o caso que eu havia examinado assim como questões sobre ECG ou tratamentos com seus efeitos adversos. O cirurgião, como dito, foi um carrasco e me perguntou muita anatomia, coisa que eu não havia revisado antes da prova. Estudar ECG e imagens foi bem importante, pois sempre você é perguntado sobre.

Despois de muito esforço deu tudo certo, recebi minha tão sonhada Approbation e a carta de alforria para trabalhar em toda a Alemanha. A depender do estado em que você trabalha, o processo pode ser mais fácil. Essa é a única parte frustrante de todo o processo. Você pode ter azar que nem eu e ter que passar por tudo isso, ou você pode apenas “esperar o tempo passar” como em alguns estados. Infelizmente o processo não é unificado em toda Alemanha e muito injusto em alguns estados, de forma que muitos tentam mais de uma vez.

Espero poder ajudar alguém com o meu depoimento. Boa sorte a todos que estão aí na busca do seu espaço ao sol (ou à neve) aqui na Alemanha. 

      

 

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