Radiologia (anônimo)

Oi, pessoal! Gostaria de compartilhar com vcs um pouco da minha experiência como médico residente em Radiologia aqui na Alemanha. Fiz 3 anos de residência no Brasil e vim pra cá logo depois de terminar o curso. Atualmente estou no 5º. ano de residência num hospital de grande porte na Alemanha. O objetivo deste post não é falar sobre o processo de revalidação em si (lembrando que muita informação sobre a revalidação pode ser encontrado na lupa), mas sobre as semelhanças e diferenças da residência em Radiologia na Alemanha. Antes de começar, digo que fiz a validação do curso de Medicina por comparação (recebi a Approbation depois de 1 ano de espera) e na época não existia a Fachsprachprüfung. Dos meus 3 anos de residência no Brasil foram reconhecidos 2 anos por aqui. 
Em primeiro lugar, como vcs sabem, a residência na Alemanha dura no mínimo 5 anos. Nesse tempo o objetivo é aprender a laudar Rx, US, CT, RM e realizar alguns exames de Intervenção, como angioplastia por balão, colocação de stent, drenagem de abscesso, terapia percutânea contra dor (bloqueio facetário, terapia perirradicular) etc. Aqui começam as diferenças... No Brasil os Radiologistas fazem no geral muito mais exames de US do que aqui. Na Alemanha as outras especialidades (Clínica Médica, Cirurgia, Pediatria, GO) aprendem a fazer US. Nos plantões por aqui acaba-se fazendo muito pouco - ou nada - de US. Além disso, no Brasil a parte de Intervenção é realizada mais no R4 por quem opta por essa subespecialidade. Por aqui os residentes já tem contato com essas terapias, mas isso não significa que ele saia fazendo uma angioplastia ou coiling. Sem pânico! O objetivo é mais ter uma idéia de como essas terapias funcionam, as vias de acesso, as indicações e os padrões de imagem principais (reconhecimento de aneurisma, dissecção, trombo, sangramento ativo etc). Na prática os residentes acompanham algumas vezes esses exames, dependendo do que é feito no serviço, e se tiverem interesse vão colocando a “mão na massa” aos poucos se os superiores deixarem. Obviamente muitos hospitais não realizam exames de Angiografia de alta complexidade, e os residentes passam na prova de título do mesmo jeito! Drenagem de abscesso e biópsia por agulha já são procedimentos mais rotineiros que fazemos com uma frequência maior.
Além disso na residência é esperado que vc laude uma quantidade mínima de exames, por ex. 1000 exames de US, 3000 Rx ou TC de esqueleto / articulações, 3000 Ressonâncias, 1500 Rx ou TC de abdome, que acompanhe / faça p. ex. 25 terapias de recanalização (ex. angioplastia transluminal percutânea, colocação de stent etc), que realize 50 biópsias ou drenagens etc. O valor varia um pouco de estado para estado. Na prática, muitos residentes acabam precisando alguns meses a mais até conseguir o número de exames necessário. No final é o próprio residente que acaba se inscrevendo para a prova de título, quando ele achar que está preparado e tiver a quantidade de exames exigida. Não é igual no Brasil, onde sabemos o dia em que vamos terminar. A tabela com a quantidade de exames (Logbuch) é assinada pelo chefe do serviço. O que vale é a assinatura dele. Por aqui eles dão grande valor à quantidade de exames laudados. Essa informação é muito importante para poder fazer a prova de título. Quando vc pára de trabalhar num determinado serviço o seu chefe dá uma carta de recomendação e a quantidade de exames realizada. Vale lembrar que alguns exames são desmembrados, por ex., TC de paciente politraumatizado vem marcado como “CT Polytrauma” mas acaba sendo desmembrado em TC de crânio, de tórax, de abdome e de coluna. Mais uma vez, a tabela é preenchida a mão e assinada pelo chefe.
Outra diferença... No Brasil a residência completa é realizada geralmente em um hospital universitário. Na Alemanha vc pode fazer num hospital universitário (Uniklinikum), em hospitais de menor porte ou até mesmo em consultórios / serviços de diagnóstico. Cada serviço tem permissão para “formar um residente” por um tempo determinado (Weiterbildungsermächtigung). Em hospitais de grande porte é possível fazer a residência completa ali mesmo. Já em serviços menores eles podem ensinar, por ex., durante 2, 3 ou 4 anos (isso significa que depois desse tempo vc vai ter que procurar outro serviço para continuar a residência). Por ex., se no hospital em que vc trabalha não tem Radiologia Intervencionista, muito provavelmente o serviço não terá a permissão para ensinar durante os 5 anos (ou se tiver, provavelmente terá convênio com outro hospital para o residente “rodar” nesse outro serviço). Por aqui, ao contrário do Brasil, não tem prova para entrar na residência. Vc envia o seu curriculum e espera ser chamado para uma entrevista. Se durante a entrevista eles perceberem que vc tem o perfil que eles estão procurando, vc é contratado por um perído determinado (p. ex. 1 ou 2 anos, se tiver sorte direto os 5 anos). Isso significa que é comum ver residentes que trabalharam em mais de um serviço. Para quem for se candidatar a uma vaga (e isso vale obviamente para todas as áreas), acho que vale como dica procurar saber antes um pouco da cidade ou da região em que se está candidatando e se possível demonstrar que o seu interesse é continuar por ali. Que se vc gostar do serviço (e se eles obviamente gostarem do seu trabalho), é provável que vc continue ali mesmo... Ou seja, que vc é uma pessoa com quem eles podem contar a médio e longo prazo - especialmente se vc se candidatar a um serviço numa cidade menor, em que às vezes falta médico. Eu sei que isso pode soar um pouco estranho para nós que chegamos do Brasil muitas vezes sem nenhum vínculo com a Alemanha, esperando que algum lugar - e principalmente no início “qualquer lugar” - nos aceite. Muitos de vcs já ouviram falar que por aqui falta médico, e isso na prática não significa que simplesmente ninguém se candidata a uma vaga, mas também que as pessoas vem e vão embora depois de pouco tempo. Daí o interesse em formar residentes que se imaginam no mesmo ambiente de trabalho no futuro...
Quanto à residência em Radiologia, sinto que os serviços esperam que haja um envolvimento com o paciente no sentido de “resolver o problema” dele. Quanto mais ativo eu me demonstro no trabalho, quanto mais eu me mexo para tentar resolver um problema, melhor. Um fato importante é que por aqui todo funcionário do hospital tem um telefone, o que significa que o acesso às pessoas é muito fácil. Eu praticamente sempre tenho acesso ao nome do médico que solicitou o exame, e levo poucos segundos para achar o telefone dessa pessoa. Durante o dia eu ligo e recebo muitas ligações das outras áreas, o que às vezes é um pouco estressante... Se eu no dia estiver p. ex. rodando na TC com pacientes que estão fazendo exame de estadiamento, eu tenho que avaliar o exame antes de deixar o paciente voltar pra casa. As próprias auxiliares avisam que o paciente já “desceu” do aparelho e que está aguardando. Se eu visualizar como achado acidental que o paciente tem uma embolia pulmonar, é esperado que eu faça contato imediato com o pessoal do PS e envie o paciente para tratamento. Se eu vir que ele tem um abscesso, é esperado que outras pessoas sejam contactadas para decidir o que deve ser feito. Se o paciente vier com suspeita de AVCi em janela terapêutica e eu constatar que ele tem um trombo na Ângio-TC, eu devo contatar a equipe da Neurorradiologia para eles decidirem se tem indicação de trombólise mecânica ou não. Nesse sentido vc sente que faz ou pode fazer a diferença. O trabalho acaba sendo às vezes mais estressante, porque tem dia que fico grudado no telefone ou sou interrompido muitas vezes enquanto estou laudando. Isso até acontecia no Brasil, mas sinto que aqui isso é muito mais comum. Muitas vezes tem que ser meio “mutitasking”... Se vc não avisar o médico solicitante que o Rx de abdome tem sinais de pneumoperitôneo, é possível que o seu chefe ou o colega do outro lado venha pedir esclarecimento. Outra coisa é que por aqui nem todo auxiliar de Radiologia faz punção venosa. Se eles não conseguirem o acesso, eu sou chamado. Nos exames com contraste retal, sou eu quem coloca o balão e controla o fluxo de contraste. Antes dos exames de TC também se deve checar o clearance de Creatitina, além de TSH, T3 e T4 (para ver se o pcte precisa receber perclorato de sódio nos casos de hipertiroidismo latente). Isso geralmente é checado pelos auxiliares (MTRs), mas se eles ficarem na dúvida eles vão me perguntar. E se eu não souber, eu aproveito que todo mundo tem telefone e fico ligando até descobrir a resposta! Por aí vcs veem que Radiologia não é apenas ficar laudando no escuro sozinho com o computador.
Uma grande diferença é em relação às subespecialidades. Na minha experiência no Brasil, o radiologista procura uma determinada área para se subespecializar (por ex. mama, músculo-esquelético, abdome), e tenta ficar “só” nessa área. Por aqui só existe subespecialização em Radiopediatria e Neurorradiologia, cada uma com duração de 3 anos, obviamente após os 5 anos de residência em Radiologia. Isso significa que na prática é menos comum encontrar alguém que “só” trabalhe, por ex., com mama, ou tórax etc. Nos hospitais de grande porte e em algumas clínicas é inevitável que algumas pessoas acabem se interessando por uma determinada área e acabem laudando com maior frequência um determinado tipo de exame, mas sinto que no geral é esperado que vc tenha “um certo domínio do todo”, mesmo porque se o outro radiologista estiver de férias ou doente os exames deles serão divididos entre os outros. Eu sinto que no Brasil o conhecimento do radiologista que se subespecializou é mais aprofundado. Ele sabe muito de uma área específica. Aqui tem que saber um pouco de tudo (obviamente mais que apenas “um pouco”)... Acho que vale a pena lembrar que as cidades na Alemanha são menores que no Brasil, que uma cidade por aqui com 400.000 habitantes já é considerada grande. Nesse ambiente não é difícil imaginar que se dê preferência ao radiologista que saiba laudar de tudo (isso não significa que ele laude super bem de tudo!). A grande maioria dos serviços não comporta contratar alguém que “só” lauda CT de coração, p. ex. Sinto que no geral eles achariam muito estranho saber laudar uma RM de ombro, mas não saber laudar uma TC de tórax ou um Rx de abdome. Como eu tive a oportunidade de conhecer os dois lados da moeda, acho que no Brasil - no que se refere à formação - não temos em absolutamente nada a perder. Nossa formação é muito boa dependendo de onde estudamos! A diferença é que no Brasil o conhecimento é mais “compartimentalizado”, as pessoas tendem a ficar no que elas se subespecializaram e fazem de melhor - o que aliás já li em posts de outros colegas em outras áreas.
Pelo menos em SP, a maioria dos serviços exige que vc abra uma empresa para ser contratado como profissional terceirizado. Muitas vezes não existe realmente um vínculo empregatício, e o radiologista acaba trabalhando em vários serviços diferentes, quando necessário pegando uma ou outra “agenda de US”. Pelo menos em SP o fluxo é muito dinâmico. Isso tem vantagens e desvantagens. Por aqui o “normal” é vc trabalhar em apenas um lugar, seja ele hospital ou clínica de diagnóstico. Existe uma condição especial, o chamado “Honorararzt”, em que o médico já especialista opta por trabalhar como terceirizado em hospitais de cidades (ou até mesmo de estados) diferentes, de acordo com a necessidade desses lugares, mas isso com certeza não é o “mais comum”.
Uma coisa que não quero deixar de falar é sobre a agilidade em se liberar o laudo. O objetivo de todo serviço é que todos os laudos sejam liberados o mais rápido possível. Já trabalhei num hospital em que exame de estadiamento “atrasado” em dois dias era uma “Katastrophe”. Isso obviamente varia de lugar pra lugar, mas no geral o andamento é rápido. A maioria dos exames acabam sendo laudados no mesmo dia.
Por último o laudo em si... Onde eu trabalho o laudo é ditado no computador e o reconhecimento da voz é digital, ou seja, eu dito e o texto aparece imediatamente na tela. Eu posso obviamente digitar o texto no teclado, se preferir, mas o “normal” é ditar. Em outros serviços vc dita no computador ou numa fita K7 e uma digitadora escreve o texto e manda de volta pra correção. Daí eu corrijo o texto, colo no corpo do laudo e envio para o meu preceptor (Fach-, Ober- oder Chefarzt) ler. Em alguns serviços o preceptor vem até vc (ou vc vai até ele) e é discutido o laudo. Na minha experiência a discussão é na maioria das vezes extremamente rápida, a sensação que dá é que as pessoas quase nunca tem tempo... Se o preceptor não concorda com alguma coisa que eu escrevi, ele fala como quer que eu reescreva, explica o por quê de forma rápida, e bola pra frente – próximo exame! Mesmo porque é comum que durante a liberação eu e o preceptor tenham que atender ao telefone algumas vezes... Muitas vezes eu não vejo a pessoa que vai liberar o meu laudo. Eu envio o laudo para ele / ela corrigir, se estiver tudo ok o laudo é liberado, se faltar alguma coisa ele envia o laudo de volta com algum comentário (geralmente direto em poucas linhas).
Pra quem leu até aqui... espero que vcs possam ter tido uma idéia de como funciona a Radiologia na Alemanha. A idéia foi passar um pouco do meu dia a dia. Pra quem pensa em fazer Radiologia, acho extremamente válido tentar fazer um estágio para conhecer o sistema e ter contato com o “alemão radiológico”. Aprender a língua é fundamental. Todo dia eu aprendo alguma expressão nova... No início é bem difícil, mas com o tempo as coisas se repetem e vão ficando mais automáticas. Espero poder ajudar se surgirem dúvidas... Obrigado pela atenção e sucesso a todos!

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